Conteúdo do blog

Conteúdo do blog
Mostrando postagens com marcador Narrativa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Narrativa. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de junho de 2011

O encontro

Annabel Lee – musa do poema de Edgar Allan Poe

O ENCONTRO
© Josselene Marques

Milla abriu a cortina da noite. Acendeu as estrelas e a Lua. Estendeu um tapete de areias coloridas margeado por águas límpidas que, movidas pelo vento, produziam uma relaxante melodia. Retornou ao seu abrigo. Em seguida, preparou uma bela mesa com maná e néctares. Logo depois, tomou um demorado banho, hidratou a pele e se vestiu de mar. Nos pés, um par de peças escuras que completavam sua elegância. Realçou o contorno dos olhos. Pintou os lábios de púrpura. O corpo vigoroso espargia gerânio pelo ar. A alma estava leve, mas o coração batia num compasso apressado. O esperado não tardaria.

Posicionou-se à janela. Ficou a contemplar aquele cenário tão cuidadosamente preparado. De súbito, deu-se uma comunicação extrassensorial, a uma curta distância. Quem ela aguardava estava se aproximando... Ainda não podia vê-lo, mas sentia sua energia, transmutada em mensagem: “Estou chegando, amor”. Alguns minutos se passaram. Eis que ela o vê atravessar o tapete multicolor. Quando seus olhares se cruzaram, o tempo reduziu sua marcha até parar, por completo, no exato momento em que ele venceu os últimos centímetros que o separavam de sua amada. E foi nesse encontro que ambos se viram recompensados pelo período de separação que lhes fora imposto pelo destino. Felizes, eles se perderam num longo abraço que os transportou ao mundo dos sonhos, no qual passaram a viver.


sábado, 2 de outubro de 2010

Além da imaginação

Os sonhos povoam sua mente...
Imagem do Google

Era uma tarde de sexta-feira. Início da primavera. Helena, uma dinâmica mulher, acabara de chegar a sua casa, após cumprir uma cansativa agenda. Estava muito fatigada. Realmente, o dia não fora fácil. Tomou uma ducha, alimentou-se e resolveu repousar o corpo. Pretendia apenas dormitar, pois ainda tinha outras tarefas a realizar. Em poucos minutos, sem se dar conta, caiu em sono profundo e um estranho sonho passou a povoar sua mente.
Encontrava-se em um quarto enorme, na companhia de pessoas desconhecidas deitadas em espaçosas camas. Tinha o aspecto de uma enfermaria na qual homens e mulheres pareciam recuperar-se. Embora não interagisse com eles – apenas os observava com atenção – sentiu-se acolhida. Eles conversavam entre si e pareciam felizes.

De repente, sua atenção foi desviada para uma espécie de chamada telefônica – ela não usava nenhum aparelho, mas ouvia, perfeitamente, uma voz bastante conhecida. Do outro lado da “linha” estava uma de suas primas, por quem ela sempre teve especial apreço. O motivo da “ligação” era inteirar a sua quase irmã de que a mesma – Helena – havia sofrido um acidente fatal no qual tivera parte de seu rosto deformado – inclusive, perdera a orelha direita, justamente a do ouvido que estava sendo utilizado para receber a mensagem.

A princípio, Helena achou que tudo não passara de uma brincadeira de mau gosto da prima, apesar de este proceder não ser de seu feitio. Sentia-se bem, inteira e sem dor alguma. Esta informação não podia ser verdadeira. Certamente, fora um engano, um trote ou algo parecido.

Em seguida, Helena repetiu a “notícia” para os seus companheiros de quarto. Comentou sobre o absurdo do que lhe fora transmitido. Para seu espanto, nenhum deles fez comentário algum. Limitaram-se a olhá-la inexpressivamente. Sem encontrar apoio, levantou-se e abriu a porta do quarto. Ao erguer a vista, teve uma visão que a fez gelar e sentir uma emoção indescritível. À sua frente, sentada em uma cadeira de balanço, sorrindo para ela, estava a sua amada avó, falecida há 29 anos. Diante dessa evidência, Helena não teve outra alternativa senão aceitar “a realidade”. Infelizmente, não deu tempo de conversar com sua avó, pois sua mãe, intrigada com o seu demorado descanso, a despertou.Copyright © Josselene Marques
Todos os direitos reservados

domingo, 25 de abril de 2010

O vestido verde

Jovem veste um vestido verde.
Imagem da WEB

Pietro e Elena moravam na mesma cidade, há vários anos, mas nunca haviam se encontrado. Por uma artimanha do destino, eles se conheceram. Viram-se, pela primeira vez, em uma linda manhã ensolarada. A empatia entre eles foi instantânea e a admiração era recíproca. Tornaram-se amigos. Ambos conservavam parte do frescor da juventude, pois não aparentavam sua idade cronológica. Ele costumava vestir-se elegantemente – o que realçava o seu belo porte. Para trabalhar e/ou estudar, ela tinha preferência por jeans com túnicas coloridas – que a tornavam, aparentemente, ainda mais jovem, mas não revelavam a beleza de seu corpo.

Com o passar do tempo, a afinidade e a intimidade foram aumentando. Todavia, comportavam-se como dois excelentes amigos – isto até o belo dia em que Elena o surpreendeu e tudo mudou. Pela primeira vez, Pietro percebeu o quanto sua amiga era, ingenuamente, sedutora. Apesar de conhecê-la de perto, não reparara, com interesse, em seu físico. A princípio, ela não se encaixava no seu perfil de mulher ideal.

Embora estivessem no período chuvoso, naquele dia em especial, o sol renascera esplendorosamente. Cansada das roupas pesadas, que fora obrigada a usar em virtude do frio, Elena escolhera um lindo vestido verde para usar por ocasião de seu compromisso matinal. Tinha uma reunião de trabalho. Normalmente, ela só usava seus vestidos para ir à missa e às raras festas, em família, das quais participava. Ao olhar-se no espelho, previu que, no mínimo, os seus colegas professores iriam estranhar seu traje. Chegando ao seu destino, confirmou suas previsões. Todos repararam nela e a elogiaram. Alguns até sugeriram que ela deveria usar somente vestidos – não há nada mais feminino do que eles -, pois os mesmos lhe caíam muito bem. Depois de alguns minutos, seu melhor amigo entrou no recinto e a observou com indisfarçável expressão de espanto. Não resistiu e aproximou-se. Durante o cumprimento, segredou-lhe um elogio que a fez arrepiar-se. A partir daquele momento, a amizade dera lugar a algo bem mais forte. Sentiram-se, irremediavelmente, atraídos. Pietro passara a enxergar a mulher e não apenas a amiga solícita. Elena que já o escolhera para amar – e não o avisara -, interiormente, vibrou de alegria por, finalmente, haver sido notada como desejava.

As horas voaram e eles lamentaram o fato de terem que se afastar, pois precisavam retornar aos seus lares. Despediram-se. O último olhar de Pietro estava repleto de promessas.
Já era adiantado da hora noturna quando Elena recebeu uma chamada telefônica. Do outro lado da linha, Pietro lhe confessou o seu sentimento. Ela o imitou. Juraram amor eterno e combinaram o seu primeiro encontro a sós.

Copyright © Josselene Marques
Todos os direitos reservados

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sequestro por amor

Imagem: WEB


Leon e Mariah tinham algo em comum, apesar de viverem em lugares distintos e distantes: ambos haviam sido vítimas de decepções amorosas. Seus corações foram, terrivelmente, ultrajados e, em consequência, se negavam a amar por temerem o sofrimento que mais um engano poderia lhes causar.


Seu passatempo/lazer era viajar pelo mundo através das teias de comunicação. E foi com esse espírito que, em um navegar solitário, proporcionado pela tecnologia, os dois se descobriram e, instantaneamente, esqueceram temores e angústias do passado.

A empatia foi determinante nessa atração: eles tinham histórias, opiniões, aspirações e personalidades muito parecidas.

O tempo foi passando, os contatos se ampliando e, junto com eles, os sentimentos que nutriam um pelo outro. Enfim, deram-se conta de que o amor se instalara. Não havia dúvidas. Seus corações, até então, tomados pela tristeza vibravam de alegria, sempre que se comunicavam. Desejavam estar juntos, mas seus inúmeros compromissos os tolhiam, negando-lhes o prazer da convivência.

Certo dia, Leon tomou uma decisão: não mais esperaria. Não podia perder mais tempo. Já sofrera, demasiado, em vão. Não podia perder a oportunidade de ressarcimento que a vida estava lhe oferecendo.

Em uma bela e ensolarada tarde, Mariah recebeu uma chamada. Para sua surpresa, era o seu amado ao telefone. Leon pediu que ela olhasse pela vidraça. Em seguida, perguntou se ela estava vendo um automóvel branco, em frente a sua residência. Bastante surpresa, Mariah respondeu que sim e quis saber como ele havia adivinhado. Leon sorriu e pediu que ela se dirigisse até lá. Ela, um tanto confusa, obedeceu. Após vencer a pequena distância que a separava do seu destino, observou que uma das portas carro fora aberta. Diante de seus olhos estava o seu Leon. Como sonhara com aquele momento. Quanta emoção. Suas pernas e mãos ficaram trêmulas. Sua respiração tornou-se ofegante. O coração quase a saltar do peito. O jovem pediu-lhe que entrasse e fechasse a porta. Assim que ela atendeu ao seu pedido, ele deu partida e saiu a toda velocidade. Mariah não teve tempo de despedir-se de seus familiares.

Atualmente, Leon e Mariah vivem muito felizes em um lugar bonito e pacato, que escolheram para recomeçar as suas vidas.

Copyright © 2010 – Josselene Marques
© Todos os Direitos Reservados

sábado, 17 de outubro de 2009

Socorro angelical

Imagem: WEB


Numa linda e ensolarada tarde de setembro, Camille, uma jovem escritora e artesã, dirigia seu automóvel em uma longa estrada, ladeada por uma vegetação de variados matizes de verde e ornada com flores rurais de tonalidades vibrantes. Em alguns trechos do percurso, também podia ver inúmeros cajueiros carregados de pedúnculos florais cujo aroma invadia suas narinas, lhe abria o apetite e lhe trazia recordações do seu tempo de menina. Disciplinada, resistiu ao desejo de estacionar e se deliciar com aqueles pseudofrutos. Tinha pressa. Estava preocupada e não podia perder mais tempo. Algo lhe dizia que precisava chegar o mais rápido possível e ela levou em consideração a sua intuição, acelerando o carro até o limite permitido.

Seguia ansiosa em direção à casa que habitara na infância e na adolescência, pois há dois dias não tinha notícias de sua tia Helena. Ela simplesmente não atendia às suas chamadas. Mesmo levando uma vida agitada e repleta de compromissos, a jovem telefonava todos os dias para a tia e única parenta próxima.

A casa estava localizada numa chácara da família, a uma distância razoável do centro urbano. Era um local privilegiado, distante da poluição da cidade. Tia Helena optara por viver lá enquanto a sobrinha concluía os estudos. Com a idade avançada e um problema cardíaco, ela era uma preocupação constante. Quando concluiu o curso superior, Camille, bastante apaixonada pela profissão e por alguém especial que conhecera, decidiu que não mais voltaria para a chácara. Embora amasse a tia, não podia se afastar de seu amor e das oportunidades que surgiam em sua brilhante carreira. Usara de todos os argumentos para trazê-la para junto de si, mas fora em vão. Tia Helena tomara uma decisão irredutível: não deixaria o campo.

Camille não tinha irmãos e perdera os pais e os avós, aos 17 anos, em um incêndio ocorrido, justamente, na casa para a qual ela estava se encaminhando. No dia do acidente, a adolescente e a tia estavam na capital do estado, fazendo a matrícula no curso de Letras e Artes. Camille fora aprovada, com louvor, em um exame para ingressar na mais conceituada universidade da região. Um curto-circuito na instalação elétrica antiga e carente de reparos provocou a tragédia. Os donos da chácara gozavam de uma situação financeira confortável, mas priorizaram outras benfeitorias e negligenciaram o item segurança.

Ao retornarem da viagem, tia e sobrinha se depararam com o terrível cenário: a casa parcialmente destruída, quatro corpos envoltos em sacos plásticos pretos e bombeiros (chamados pelo único vizinho) apagando os últimos focos de fogo. Foi traumatizante e desesperador. Ambas desmaiaram e foram socorridas por dois profissionais da área médica que se encontravam em uma ambulância também solicitada para a remoção dos cadáveres e dos possíveis sobreviventes.

Uma semana depois do sepultamento de seus familiares, Tia Helena e Camille resolveram reagir e reparar os danos materiais. Em três semanas tudo ficou em ordem e, agora, o triste cenário fazia parte apenas de suas lembranças.

Com o início do período letivo, a adolescente foi morar, próximo à universidade, na casa de sua madrinha enquanto Tia Helena permaneceu na chácara, sozinha. Não queria companhia de estranhos e fazia questão de fazer todo o serviço doméstico. Devido à idade, abriu apenas uma exceção e, a cada quinze dias, uma das empregadas do vizinho fazia a limpeza pesada.

Quando atingiu a maioridade, a universitária mudou-se para o apartamento que herdara dos pais. A partir daí, conquistou a independência. Tomou posse da poupança, aberta em seu nome, desde que nascera, e investiu em um ateliê. Sua criatividade e habilidade eram impressionantes. Talhava peças de rara beleza que logo eram comercializadas. Seu namorado, um lojista bem-sucedido, se encarregava de divulgar e vender o seu trabalho. O dia da formatura chegou. Tia Helena ficou radiante. Em breve, estariam juntas novamente. Para sua decepção, a sobrinha revelou sua mudança de planos. Então, depois da solenidade, ela retornou para o seu “cantinho”, como ela costumava chamar a antiga casa de seus antepassados.

Finalmente, Camilla avista a sua casinha. O sol já começava a se pôr. Os últimos raios davam um aspecto triste à paisagem. Aos poucos, tudo ao seu redor ia perdendo o brilho. Quanto mais se aproximava, mais angustiada a jovem ficava, parecia estar adivinhando que algo de muito grave ocorrera. Mas o quê?

Finalmente chegou. Abriu a porteira de acesso. Entrou e estacionou. Estranhou as luzes apagadas. Elas já deveriam estar acesas, pois escurecia. A porta principal estava encostada. Deu alguns passos e acendeu as luzes. De repente, escutou gemidos vindos do quarto. Apressou-se. Ligou o interruptor e o que viu a fez gelar. Gavetas reviradas e sua amada tia estendida no chão com um grande corte no braço e hematomas no rosto e nas pernas. Ao seu lado, um pedaço de madeira. Camilla, visivelmente aflita, correu em seu socorro. Fez com que falasse e descobriu que a mesma fora vítima de assaltantes. Estes além de levarem o que encontraram de valor, ainda, lhe bateram. Ao cair, após ser violentamente empurrada por um deles, quebrara uma das pernas e a dor a imobilizara. Sentia fome e sede, mas não tivera forças para arrastar-se até a cozinha. Há horas não se alimentava e nem bebia. Felizmente, estava viva. Sua sobrinha – tal qual um anjo protetor –, com a ajuda do vizinho – que não se dera conta do assalto -, imobilizou a sua perna e a colocou no automóvel. Foram até a cidade mais próxima e lá receberam o atendimento necessário.

Na volta para casa, a sobrinha conseguiu, enfim, convencê-la a morarem juntas na capital. Tia Helena conscientizou-se, depois desta experiência, de que não poderia ter paz e tranquilidade morando naquele lugar. Os bandidos poderiam voltar.

Camille vendeu a propriedade para o vizinho – que pretendia investir na segurança –, comprou uma casa em um condomínio horizontal e alugou o seu apartamento. Daquela data em diante, iniciaram uma nova etapa de suas vidas. Farão companhia uma para outra até o fim de seus dias.

Copyright © 2009 –Josselene Marques
© Todos os Direitos Reservados

domingo, 9 de agosto de 2009

O segredo de Leon

Neste domingo, comemoramos o Dia dos Pais no Brasil. Escrevi um conto especialmente para marcar a data. Ele é cem por cento inédito. O Segredo de Leon tem um final surpreendente. A leitura do mesmo é o meu presente, neste dia, para você que me visita e, principalmente, para quem já teve o privilégio de ser pai.
Um bom dia a todos!


Em um lindo castelo, numa pacata região europeia, moravam um nobre conde e sua linda esposa. Chamamavam-se, respectivamente, Leon e Laura. Não tinham filhos.

Ele contava com um pouco mais de quarenta anos, estatura mediana e corpo esbelto. Cabelos castanhos e lisos emolduravam o seu semblante expressivo no qual se destacavam belos olhos negros e lábios perfeitos. Sua esposa era loira e dez anos mais jovem. Tinha os olhos azuis nos quais se via refletida uma tristeza de razão desconhecida.

Apesar de manterem uma política de boa vizinhança, raramente, frequentavam ou eram anfitriões. Pouco se sabia de sua intimidade e suas preferências a não ser que o Conde Leon apreciava música. Durante o dia inteiro, eram ouvidas belas canções, em diferentes línguas, oriundas da torre de seu castelo. A vizinhança admirava o seu refinado gosto musical. Os seus empregados o descreviam como um senhor, relativamente, jovem, bastante inteligente, justo, gentil, generoso e com firmeza de caráter invejável; enfim, um ser raro e adorável. O que se passava na torre do castelo, no entanto, nem seus criados o sabiam. Era, realmente, um mistério.


Google Images

Nos últimos cinco anos, segundo eles, o Conde enchia a esposa de mimos e não permitia que os mesmos a ela tivessem acesso – fato que estranhavam sobremaneira. O próprio Leon se encarregava de servir-lhe as refeições. O novo modo de agir do patrão se dera desde o regresso do casal de uma viagem a uma próspera cidade vizinha. Nas poucas vezes em que ele se afastava do castelo para atender a convites irrecusáveis ou honrar compromissos assumidos, era evidente a sua pressa para retornar aos seus domínios. Sempre dava uma desculpa para justificar a ausência da esposa.

Moças casadoiras, vendo-o sozinho, sonhavam com o seu amor. Outras mais afoitas o assediavam e não entendiam o motivo de suas escusas (embora admirassem a sua fidelidade à esposa) e muito menos o porquê de apresentar-se sempre desacompanhado. Ele tinha um segredo – não restava dúvida. Mas, qual?
Por intermédio da criadagem, todos conheciam e reconheciam suas virtudes, contudo, desconfiavam que algo estranho deveria estar acontecendo no interior de sua residência senhorial fortificada e inacessível aos curiosos.

Em uma tarde de verão, quando voltava de uma reunião do Conselho da Cidade, Leon ouviu gritos de aflição provenientes da mata que ladeava a estrada – seu percurso habitual. De repente, surgiu, em frente à sua carruagem, uma moça de pele branca, cabelos louro-escuros e olhos amendoados que suplicavam a sua ajuda. Ágil, ele saltou de seu transporte para socorrê-la. A jovem assim lhe falou:

- Cavalheiro, por misericórdia, ajude-me a salvar minha pobre mãe!
- Não se aflija, senhorita. Como posso ajudá-la? - Foi a sua resposta tranquilizadora.
- Estávamos lavando roupas, naquele rio, e ela desmaiou inesperadamente. Tentei reanimá-la, mas não consegui. Venha depressa, pelo amor de Deus! - Concluiu a angustiada filha.

O conde ajudou-a a subir na carruagem e o contato com a pele macia de seus braços causou-lhe um arrepio. Para reprimir seu instinto, concentrou-se em socorrê-la. Logo chegaram ao local indicado. Ele observou que a mãe da jovem ainda respirava. Animou- se. Fez com que a mesma aspirasse um pouco de éter, o que a fez recobrar os sentidos instantaneamente. Precavido, desde que se emancipara e começara a andar sozinho, costumava levar consigo uma caixa de primeiros socorros para o caso de acidentar-se. Ao ter sua mãe “de volta”, a moça pulou de alegria e, impulsivamente, abraçou o seu salvador. Os corações de ambos aceleraram seus batimentos e seus olhares se encontraram. A atração foi tamanha que, por alguns segundos, esqueceram que não estavam sós. O canto de um pássaro os fez voltar à realidade. O Conde lhes ofereceu uma carona e as deixou em sua humilde casa, próxima à margem do rio. Durante o curto caminho percorrido, descobriu que não haviam se alimentado naquele dia – seguramente, a causa do desmaio. A modesta senhora ficara viúva há dois meses e o que ganhavam, lavando e passando roupas, mal dava para garantir o pão de cada dia. O Conde ficou comovido e lhes ofereceu trabalho em seu castelo. Elas, surpresas e agradecidas, aceitaram a oferta.

Logo que chegou a casa, Leon providenciou tudo para a admissão de suas protegidas.

Duas semanas se passaram e Melissa – este era o nome da jovem – teve a oportunidade de confirmar o que diziam do seu bondoso senhor. Ela simplesmente o venerava. Seria capaz de dar a sua vida por ele. Em momento algum, ele se aproveitara de sua condição para molestá-la e, por isso mesmo, o seu amor crescia ainda mais. Sabia que era um amor impossível, pois Leon tinha uma companheira. Ainda não a vira, mas os funcionários mais antigos afirmavam que era bela e amável. Também estava curiosa para saber por que a condessa não saía dos seus aposentos – na torre do castelo – e o conde não lhe permitia visitas.

Certo dia, Melissa ouviu soluços vindos do escritório e foi até lá. Encontrou o Conde ajoelhado, diante de uma imagem da Virgem Santíssima, pedindo pela saúde de Laura. Parecia desesperado. Melissa, movida por um sentimento de proteção, correu até ele e o abraçou. Leon não a rejeitou. Fez melhor. Resolveu abrir-se com ela. Contou-lhe que amara sua esposa desde que a vira pela primeira vez. Durante alguns meses foram felizes, mas depois que ela descobrira a sua incapacidade para gerar filhos, entrara em processo de depressão profunda e não queria ver mais ninguém. Ele, durante os últimos anos, fizera de tudo para que ela recuperasse o gosto de viver, mas seus esforços tinham sido em vão. Raramente saía. Temia deixá-la sozinha. Laura já tentara o suicídio por duas vezes. Em sua última tentativa, cortara os pulsos, sendo necessária uma pequena cirurgia, na cidade vizinha, para reparar os estragos feitos em seus braços. Felizmente, os cortes não foram profundos e ela resistira. Atualmente, ela encontra-se esquálida e se recusa a comer. Quando se agita, somente a música e os tranquilizantes, prescritos pelo médico consultado durante a sua última viagem, a acalmam. O Conde confessou que se sentia impotente e não sabia mais o que fazer para salvá-la da morte iminente.

Após ouvir aquele relato, Melissa beijou as mãos de seu senhor e lhe disse que podia contar com a sua discrição. Agora, o conde parecia mais tranquilo e mais leve. Afinal, dividira o seu drama com alguém em quem aprendera a confiar. A partir daquela data, tornaram-se amigos e a cada dia ficavam mais próximos um do outro. A jovem seguia reprimindo o seu amor.
Um mês se passou. Já era madrugada quando Melissa acordou pelo som de uma voz masculina e inarticulada. Mesmo sem autorização, subiu os degraus que levavam à torre, abriu a porta do belo e confortável aposento e viu o seu senhor inclinado sobre o corpo de sua esposa que agonizava. Ele fez o possível para reanimá-la, mas seus olhos se fecharam para sempre.


Imagem: WEB

Alguns meses transcorreram até que, em uma bela manhã, ao colher flores no jardim, Melissa foi surpreendida por Leon que colocou os braços em volta de sua cintura, beijou sua face e pediu que se casasse com ele. Ela teve uma pequena vertigem, sorriu e, com um movimento de cabeça, respondeu afirmativamente. A emoção fora tão intensa que lhe faltara a voz.
Quase um ano se passou.

No meio da noite, Leon acordou, sobressaltado, pelo som de vozes e soluços. Vinham do quarto vizinho. Levantou-se rapidamente e foi até lá. Abriu, bruscamente, a porta do cômodo e ficou paralisado com a cena que viu: sua sogra, a parteira do condado e sua bela esposa, com um lindo bebê no colo, choravam de alegria. Seu filho acabara de nascer. Enfim, a felicidade voltara àquele lugar.

Copyright © 2009 Josselene Marques
© Todos os Direitos Reservados

domingo, 5 de julho de 2009

Feliz recomeço

Imagem: WEB
Na quinta hora da manhã, numa próspera cidade do nordeste brasileiro, Marcos – um homem relativamente jovem e atraente – cumprindo a rotina para uma vida saudável, despede-se do porteiro do seu edifício e, a passos largos e firmes, inicia a sua atividade física diária: sua caminhada matinal.


Depois da partida de sua esposa, resolvera aposentar-se. Encerrara a carreira de funcionário público na tentativa de recomeçar sua vida. Como seus três filhos – todos maiores, independentes e excelentes profissionais – residiam no exterior e raramente o visitavam, vivia solitário em uma casa espaçosa e confortável, repleta de lembranças do seu passado. Após o período de luto, optara por alugá-la e comprara um apartamento aconchegante próximo a uma reserva florestal.

A vista de sua janela era deslumbrante. Árvores gigantescas, de diferentes matizes de verde, eram a moldura daquele espaço natural que passara a habitar. Havia também um pomar com uma variedade capaz de atender a todos os gostos.

À noite, podia sentir os aromas de frutas, flores e mato. Eles o inebriavam. No entanto, ele preferia o dia, a luz do astro-rei e o colorido da natureza. Toda a beleza e a tranquilidade daquele ambiente, no qual era acordado pelo canto dos passarinhos, não o faziam feliz. Muitas vezes, mergulhava em recordações tristes e, em seu íntimo, alimentava o desejo de ter uma nova companheira que o amasse e entendesse para que pudesse voltar a sorrir – coisa que, praticamente, desaprendera, pois não sentia vontade de fazê-lo desde que se vira completamente só.

Após três voltas de aquecimento, na pista que circundava o condomínio, ele iniciara o seu Cooper. Como era feriado, havia poucos caminhantes, todos idosos e vizinhos seus. Nenhum deles conseguira acompanhar o seu ritmo e ficaram para trás. A certa altura, observou que se distanciara consideravelmente dos demais. Estava desacompanhado naquele lugar, como também estava em sua vida. De repente, ouviu gemidos. Caminhou, guiando-se pelo seu som, e teve uma surpresa e tanto: sentada, com uma expressão de dor nos lindos olhos verdes, de uma tonalidade incomum, estava a mais bela mulher que já vira em toda a sua vida. Loira, cútis clara, com aparência de porcelana, rosto de traços suaves no qual se destacavam além dos olhos expressivos, lábios carnudos e rosados que o fizeram paralisar. Por alguns instantes, chegara a pensar que se tratava de um sonho, contudo, mais um gemido o fez voltar à realidade. À sua frente estava uma mulher de carne e osso – uma rainha, na sua visão – que precisava de ajuda. Ela torcera o pé ao pisar em uma parte irregular do terreno. Solidário e prestativo, ele a cumprimentou e providenciou para que se apoiasse em um de seus ombros e pediu que ela lhe indicasse o caminho de sua casa. O contato com aquele corpo cheio de curvas e contracurvas o desconcertou sobremaneira. Ficou radiante ao descobrir que eram vizinhos. Ela morava sozinha. Seus pais viviam em uma pacata cidade interiorana e alugaram um daqueles apartamentos para ela poder dar continuidade aos seus estudos de nível superior. Ela cursava o segundo ano da faculdade de Gastronomia. Adorava cozinhar. Tinha vocação. Quanto aos assuntos do coração, há um ano não namorava, apesar de ser bastante admirada e assediada. Até simpatizara com alguns pretendentes, mas sua prioridade eram os estudos. Queria garantir seu futuro e sua independência.

Chegando à área do edifício, ele a acomodou em uma cadeira, na portaria do prédio, e dirigiu-se ao seu apartamento para pegar a chave do carro. Em poucos minutos já estavam na estrada em busca de atendimento médico. Para o espanto de ambos, foram logo atendidos. Feitos os exames, constataram que nada de grave acontecera. O pé da jovem foi imobilizado e eles liberados. A injeção de analgésico aliviara a dor e ela estava mais calma. Ele, para controlar as emoções que aquela mulher lhe causava, procurava concentrar-se na sua tarefa de dirigir. Kátia – o nome de batismo desta jovem – só agora passara a observar o seu anjo salvador. Tinha os cabelos e os olhos castanhos. A simetria do rosto era perfeita. Estatura mediana – parecia feito sob medida para ela. Seu corpo era esbelto e ágil – isso ela percebera quando ele a amparara. Não fosse tão longo o percurso, facilmente, a teria levado nos braços. Sentiu um descompasso em seu coração ao imaginar a cena. Contemplou com admiração o seu perfil. Ele tinha uma expressão grave e ela gostou do que viu. Marcos inspirava segurança, respeito. Kátia não precisava conhecê-lo muito para constatar que era diferente dos jovens inconsequentes que se interessavam por ela e dos quais fugia; afinal, se valorizava e não estragaria seus planos por causa de aventuras com criaturas volúveis.

Marcos sugeriu que alugassem uma muleta para que ela não perdesse a autonomia. A jovem concordou.

Finalmente, voltaram para seus lares. Ele a instalou e disse que não se preocupasse com as refeições, pois ele também sabia cozinhar e as providenciaria a fim de que Kátia pudesse ter o repouso recomendado pelo médico. Marcos notou o seu constrangimento e a tranquilizou dizendo: “Tenho certeza de que você faria o mesmo por mim, se eu estivesse em seu lugar.” A moça sorriu, pela primeira vez, e ele não disfarçou o encanto que o belo sorriso lhe causou. Seus olhares se encontraram e Kátia chegou à conclusão de que não seria fácil resistir àquele homem. Marcos, por sua vez, não queria sair dali. Aquela jovem era a concretização de sua mulher ideal. No entanto, precisava ir. Necessitava de um banho. Lembrou-se de que a despensa estava quase vazia. Iria às compras. Caso contrário, seria impossível preparar o almoço e o jantar de ambos. A contragosto, retirou-se.

Retornou por volta do meio-dia. Almoçaram juntos. Ela ficou impressionada com os dotes culinários de seu protetor. Conversaram amenidades, revelaram preferências e descobriram afinidades. Tornaram-se íntimos. Mais uma vez, Marcos sentiu dificuldade para afastar-se de sua protegida e ela lamentou as horas de sua ausência.

À noite, tudo se repetiu. Estavam ainda mais unidos, atraídos e encantados um pelo outro. Pareciam velhos conhecidos. Ao despedirem-se, Kátia deixou cair a muleta e desequilibrou-se. Para impedir a sua queda, Marcos a agarrou com força. Seus rostos ficaram próximos – muito próximos – e o primeiro beijo foi inevitável. Não tinham como voltar atrás. A atração foi incontrolável. Declararam seu amor recíproco.

Nos dias que se seguiram, eles descobriram que não poderiam viver um sem o outro. Então, resolveram casar-se e ir morar no apartamento dele.
Dois anos se passaram. Neste intervalo, Kátia concluiu o seu curso e resolveu, com o apoio do esposo, montar uma empresa de consultoria na área de gastronomia.
Atualmente, trabalham juntos e felizes. Sempre que podem, tiram uma folga e viajam pelo mundo afora. Marcos, enfim, recomeçou a sua vida, ao encontrar a mulher dos seus sonhos – o seu sol –, e voltou a sorrir.



Copyright © 2009 – 2012 © Josselene Marques